O Brasil se despede de Benito Di Paula (1941-2026) em uma cerimônia de velório aberta ao público, que acontece hoje, 20 de outubro, das 9h às 15h, no Theatro Municipal de São Paulo. A morte do cantor e compositor, ocorrida na noite de domingo, não apenas deixou um vazio na música brasileira, mas trouxe à tona uma reflexão sobre o reconhecimento tardio que muitos artistas enfrentam em sua trajetória.
Com 84 anos, Benito Di Paula sempre foi uma figura singular na cena musical, mas sua obra frequentemente foi subestimada por críticos e elites culturais. Nos últimos anos, no entanto, sua música passou por uma reavaliação, evidenciada pelo tributo fonográfico “Benito 80” (2022), que contou com reinterpretações de artistas renomados como Criolo e João Bosco. A homenagem da escola de samba Águia de Ouro durante o Carnaval de 2025 também sinalizou uma mudança no olhar sobre seu legado.
Porém, é uma ironia que o reconhecimento pleno tenha chegado somente após sua partida. Benito, conhecido por sua fluência vocal e por um estilo que misturava samba com influências latinas, foi muitas vezes rotulado como uma figura controversa dentro do próprio gênero. Suas composições, que abordavam tanto a alegria quanto a dor, como em “Retalhos de cetim” e “Vai ficar na saudade”, foram mal interpretadas por alguns críticos que o viam como parte de uma ala menos respeitável da música brasileira.
Fica a pergunta: será que os prêmios de música do Brasil, como o Prêmio da Música Brasileira ou o Grammy Latino, algum dia consideraram a magnitude de sua obra enquanto ele estava vivo? O reconhecimento póstumo de Benito Di Paula serve como um lembrete triste de que muitos artistas são celebrados somente após deixar este mundo. A tendência de reverenciar talentos que foram negligenciados em vida não é nova, mas levanta questões sobre a valorização da música popular e a eterna luta por reconhecimento dentro de um cenário cultural que frequentemente ignora aqueles que não se encaixam nos padrões tradicionais.
Agora, é quase certo que veremos um ressurgimento do seu repertório em álbuns e shows, protagonizados por aqueles que, talvez, não lhe deram a devida atenção em vida. Essa dinâmica, que faz parte do ciclo da música, levanta uma reflexão sobre como a indústria e o público tratam os seus verdadeiros ícones, deixando um legado de saudade e, ao mesmo tempo, um apelo por um reconhecimento mais justo e imediato.



